 José Herculano de Carvalho
sjpapc@yahoo.com.br
A raça curraleiro pé-duro é descendente dos bovinos trazidos
pelos portugueses no período colonial. No Nordeste, os dois principais
portos de entrada de bovinos naquele período foram os de Salvador, na
Bahia, e o de Olinda, em Pernambuco.
Como a Zona da Mata, próxima ao litoral e mais chuvosa, era destinada à
produção de açúcar para exportação, os criadores de bovinos tiveram que
se embrenhar pelo sertão semi-árido à procura de pastagens para seus
animais. Seguiram o curso do rio São Francisco e de seus afluentes para
estabelecer suas fazendas. E estas cresceram em número e prosperidade,
tanto que o São Francisco foi cognominado “rio dos currais”. A famosa
Casa da Torre, com sede na Bahia, e o mais importante estabelecimento de
criação, alcançou, no Nordeste, uma área superior a muitos países.
Indo além do São Francisco e de seus afluentes, os criadores atingiram o
rio Parnaíba, no Piauí, e ultrapassaram-no, chegando ao Maranhão. Há
também registros históricos de que animais de criação foram enviados do
Maranhão ao Pará. Os bovinos do Nordeste também chegaram a Minas Gerais e
ao Brasil Central. O Vale do São Francisco é o berço principal da raça curraleiro pé-duro e seu grande centro de irradiação. A bacia hidrográfica do rio
Parnaíba, incluindo o estado do Piauí, também teve uma grande
importância na expansão desta raça.
Os bovinos descendentes daqueles trazidos de Portugal, submetidos a uma
seleção natural rigorosa, foram, aos poucos, adaptando-se a condições de
pastagens de baixa qualidade, de seca e de calor, além de ataques de
parasitas e de doenças, resultando, depois de séculos, em animais de
extraordinária rusticidade e adaptados a essas severas condições. Assim
originou-se a raça curraleiro pé-duro.
A raça curraleiro pé-duro possui também outras qualidades: é dócil, sua carne é
saborosa, o couro macio e resistente e o leite excelente. Segundo alguns
criadores e técnicos é também muito menos susceptível a plantas tóxicas
como o barbatimão (Stryphnodendron coriaceum) e a erva-de-rato (Palicouria marcgravii).
O Piauí chegou a possuir o maior rebanho bovino do País, tornando-se um
grande exportador de carne para outras regiões brasileiras e de couro
para a Europa. Simplício Dias, um notável empreendedor do século XVIII,
na cidade de Parnaíba, PI, abatia cerca de 30 mil bois por ano e possuía
uma frota própria de navios para transportar seus produtos. E o gado curraleiro pé-duro era a base dessa pecuária. Não é de admirar, portanto, a
importância que esta raça tem na história, economia, tradição e folclore
do Piauí e de outros estados.
Com a expansão do zebu no Brasil, a partir do início do século XX, seus
cruzamentos com o gado curraleiro pé-duro e outras raças regionais resultaram em
animais com notáveis características zootécnicas. Infelizmente, como a
grande maioria dos criadores tinha escassos ou nulos conhecimentos de
Genética, essa melhoria resultante dos cruzamentos foi atribuída apenas à
presença do zebu. E, assim, os cruzamentos absorventes foram empregados
indiscriminadamente, quase extinguindo este notável recurso genético
que é a raça curraleiro pé-duro.
Então, mais uma vez, o Piauí deu uma importante contribuição para a
existência desta raça. Em 1983, a atual Embrapa Meio-Norte, com sede em
Teresina, implantou em São João do Piauí, PI, na zona semi-árida, o
Núcleo de Conservação da Raça Curraleiro Pé-Duro. Nesse núcleo, os animais são
mantidos em condições o mais próximo possível daquelas em que a raça se
formou, com o objetivo de manter sua rusticidade. Seu rebanho atual é de
cerca de 300 cabeças. Esse núcleo vem cumprindo seu papel, apesar das
grandes dificuldades enfrentadas. Animais ou sêmen oriundos direta ou
indiretamente desse rebanho já foram utilizados nas seguintes Unidades
da Federação: BA, CE, DF, GO, MA, MG, PA, PB, PI e TO.
Além de seu extraordinário valor como recurso genético, utilizável para
atender demandas futuras, que não podem ser previstas hoje, o gado curraleiro pé-duro pode ter importância atual, seguindo-se as seguintes
estratégias:
a) Criação como raça pura, procurando-se manter sua rusticidade e
selecionando-se os animais para um maior porte e as vacas para uma
razoável produção de leite, para atender o consumo das famílias dos
pequenos pecuaristas;
b) Cruzamentos com raças zebuínas, tais como a guzerá, a sindi, a gir, a
nelore e a indubrasil, visando obter animais de maior peso, adaptados a
pastagens naturais, principalmente aos diversos tipos de caatinga, e
com bons índices reprodutivos;
c) Cruzamentos com raças leiteiras como a jérsei, a holandesa, a parda
suíça, a guernsey, etc., para a obtenção de vacas resistentes ao calor e
a uma alimentação de menor qualidade.
Nesses cruzamentos, o gado curraleiro pé-duro será utilizado apenas como raça
paterna, enquanto o número de vacas desta raça não atingir um número
adequado. E, quando o número de vacas for suficiente, é necessário
evitar-se uma grande desproporção entre o tamanho dos touros e das
vacas.
Deve-se salientar que animais produtivos e bem adaptados podem resultar
de cruzamentos. A raça ovina santa inês, atualmente a mais fomentada no
Nordeste, é produto de cruzamentos não controlados entre raça exótica
(possivelmente a bergamasca) e nossas raças crioulas, com predominância
da morada nova. E diversos resultados promissores foram obtidos por
criadores em cruzamentos de curraleiro pé-duro com nelore, gir, holandesa e jérsei,
o que abre um vasto campo para experimentação nessa área.
É interessante frisar que, somente no Nordeste Brasileiro, existem cerca
de 154 milhões de hectares de terras do grupo 5 de aptidão agrícola, ou
seja, 31% do território regional, segundo levantamento do Ministério da
Agricultura (1979). Essas terras do grupo 5, quando manejadas com baixo
ou médio nível tecnológico, só devem ser utilizadas para silvicultura,
pastagem natural ou para preservação ambiental, não sendo recomendável
sua ocupação com lavouras ou pastagens cultivadas. A criação do gado curraleiro pé-duro e de seus mestiços, pela sua resistência e adaptação, é uma das
maneiras de utilizar essas terras de forma sustentável.
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