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A ABCPD – Associação Brasileira de Criadores de Gado Pé-Duro era
originalmente a ACP – Associação dos Criadores Piauienses, entidade
fundada em 18 de maio de 1924 e que congregava a maioria dos criadores
de maior renome de todas as
espécies de animais da pecuária piauiense.
Em relação ao gado bovino, o que se criava no Piauí na época da fundação
da ACP era quase que exclusivamente o gado Pé-Duro, criado ao
deus-dará, nos amplos campos comuns de pastagens nativas, sem cercas,
sem mineralização, sem vermifugação e vacinação, sem cruzamentos
planejados, sem escolha de matrizes ou reprodutores. Não havia pastagens
cultivadas. Tínhamos um rebanho resultante da seleção natural, em que
os mais resistentes, sobreviventes das secas, pragas e dos maus tratos,
acasalavam entre si, desde os tempos da introdução de gado nestas
bandas. Com o passar dos anos, houve a entrada do Zebu, e junto com ele,
as gramíneas cultivadas, as cercas de arame farpado. Logo depois,
passou-se a fazer a mineralização do rebanho e as vermifugações e
vacinações periódicas. Iniciava-se a pecuária cada vez mais profissional
e técnica. Os cruzamentos do gado nativo com o zebu eram feitos de
maneira cada vez mais intensa. Reprodutores zebuínos eram selecionados
para serem colocados em rebanhos de fêmeas da raça Pé-Duro. Buscavam-se
cada vez mais, animais maiores e pesados. Houve a época dos orelhudos e
dos pernaltas. Os machos Pés-Duros eram perseguidos, castrados ou
eliminados. Este valioso produto genético, resultado de anos de seleção
natural, corria sério risco de desaparecer.
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Pastos nativos dos campos do Piauí
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Com o passar dos anos foi fundada a regional da ABCZ
no Piauí, com o nome de APCZ. Outras associações, a APCEQ - de criadores
de eqüinos, a APICOV - de criadores de ovinos e caprinos, e a de
criadores de suínos, foram sendo formadas e os seus componentes foram
aos poucos deixando a ACP. Muitos criadores, no entanto, permaneceram
com o Pé-Duro.
Graças ao trabalho de conservação do Pé-Duro na Fazenda Experimental
Octavio Domingues, em São João do Piauí, da Embrapa Meio-Norte, criada
especificamente para tal fim em 1983, por iniciativa, perspicácia e
idealismo do seu pesquisador José Herculano de Carvalho, muitos
criadores aderiram à idéia. Desta fazenda, e sob seu estímulo e
orientação, muitos reprodutores puros nela selecionados passaram a ser
reintroduzidos nos rebanhos dos criadores, muitos com carência de
reprodutores adequados. Em 2005, eram maioria nesta associação os
entusiastas e criadores desta raça.
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Fazenda Tocaia em 1919
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Fazenda Tocaia em 2007
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Enxergavam os associados que havia um trabalho de
seleção e de melhoramento a ser feito com esta raça, historicamente
ligada à colonização do Nordeste e particularmente do Estado do Piauí,
tendo sido este, em épocas passadas, exportador de gado para o resto do
País. Não faltavam motivos para assim pensarem. Vejamos então estes
motivos.
Alguns criadores já haviam conseguido obter dentro da raça Pé-Duro
animais que, criados em pastagens cultivadas, mineralizados e
vermifugados, eram precoces, pesados e muito férteis, sem perder a
resistência característica da raça. Poderia haver, então, uma seleção
para a produção de animais mais pesados dentro do rebanho.
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Reprodutores com boa conformação para carne
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Outros percebiam que algumas matrizes eram
naturalmente boas leiteiras, sem nenhuma suplementação com ração. Uma
seleção para leite dentro da raça, ou em mestiçagem com raças mais
especializadas representa uma possibilidade.
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Vaca com úbere bem conformado
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Vaca com boa produção a campo
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Cruzamentos com fêmeas zebuínas mostraram que o seu
produto dava um mestiço rústico, pesado e vigoroso, e que esta poderia
ser a melhor opção para cruzamento no Nordeste do Brasil.
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Rufiões mestiços de Pé-Duro
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Mestiça meio-sangue Pé-Duro
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Por outro lado, o Pé-Duro é não só resistente ao
calor, aos parasitas, ao barbatimão, à erva-de-rato; é não só prolífico e
longevo, mas é também dócil, ideal para pequenos proprietários, que não
dispõem de condições econômicas para a cara estrutura necessária ao
criatório de raças mais exigentes e de maior tamanho.
Importantes características são, ainda, os sabores diferenciados de seu leite e de sua carne.
Neste momento, o aquecimento global é motivo de
preocupação de todos. As melhores terras serão reservadas para a
produção de grãos. Paralelamente, ocorre uma maior valorização de
alimentos “mais naturais”, obtidos sem agrotóxicos, sem uso de produtos
químicos – a era da Agricultura Orgânica, da Pecuária Verde e das
Certificações de Origem, quando se valorizam os sabores diferenciados. A
criação do gado Pé-Duro se enquadra nesta realidade.
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Gado Pé-Duro na caatinga nordestin |
Todas essas possibilidades econômicas e o entusiasmo
de diversos pecuaristas, que acreditam em uma raça rústica e adaptada à
nossa região tropical, foram alguns dos motivos que nos levaram à
modificação do estatuto e do nome da antiga ACP para um novo nome e um
novo estatuto. Assim passamos a ter a Associação Brasileira de Criadores
de Gado Pé-Duro (ABPD), entidade jurídica de direito privado, sem fins
lucrativos, com sede e foro em Teresina, PI, com a ambiciosa meta de
congregar pessoas físicas e jurídicas que se dediquem à conservação e ao
melhoramento genético da raça bovina Pé-Duro não só no Piauí, no
Nordeste, onde está seu maior rebanho, mas em todo o Brasil.
A nossa Associação recebe assessoramento técnico de especialistas em
conservação de recursos genéticos e de melhoramento genético animal,
assim como orientação do SEBRAE/PI, e trabalha em colaboração com a
Embrapa Meio-Norte e o Instituto Nacional do Semi-Árido “Celso Furtado”
(INSA-CF). A ABPD colaborou eficazmente para que o INSA-CF obtivesse seu
atual rebanho pé-duro, que foi adquirido no Piauí, inclusive com
doações de criadores, e transferido para a fazenda experimental desse
Instituto, em Campina Grande, PB.
A ABPD vem participando ativamente de exposições agropecuárias e já
conta com mais de 30 (trinta) associados nos estados do Piauí, Maranhão e
Paraíba, totalizando mais de 1.500 (um mil e quinhentos) bovinos.
Criadores de outros estados estão em processo final de filiação.
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Participação da ABPD em exposições agropecuárias
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A caracterização fenotípica já foi elaborada por
técnicos e criadores. Outro trabalho importante em curso é o da
caracterização genética do rebanho, o cadastramento de todos os animais,
das fazendas e criadores - grandes e pequenos, pois existem indícios de
que, após este levantamento, a população estimada da raça praticamente
dobre.
Estamos, então, cumprindo com a missão de motivar novos criadores do
“Boi da Cara Preta”, do Pé-Duro, cujo nome, longe de para nós ser
pejorativo, é sinônimo de rusticidade, tão duro nesta resistência,
quanto o ambiente em que foi forjado. Quem sabe, se, um dia, esta raça
se expandir por outras regiões, possam os interessados “mandar buscar
outros”, não só no Piauí, como diz a célebre canção popular, mas em
qualquer estado do Nordeste, e nós da ABPD estaremos de braços abertos
para recebê-los como sócios.
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